quarta-feira, 21 de agosto de 2019

NÃO DOU AULAS: EU AS VENDO!

Não se trata de preciosismo, mercenarismo ou extremo apego ao dinheiro. Pelo contrário! Trata-se de resgatar a prática dos filósofos sofistas que, ainda na Grécia Antiga, recebiam por suas atividades pedagógicas. Precisamos valorizar um trabalho que, como tantos outros é remunerado. Bem mal remunerado, diga-se de passagem. Contudo, receber pouco por ele é muito diferente de exercê-lo gratuita ou voluntariamente.
A Educação Pública Brasileira é gratuita até então, pois os ventos atuais prenunciam mudanças catastróficas e privatizantes nesta importante área social. Porém, o trabalho do professor não é e nunca foi gratuito. Ele é remunerado. Como tantos profissionais, os professores estudam e se preparam para exercerem suas atividades em sala de aula. São técnicos do conhecimento em diferentes áreas e disciplinas e recebem por isso.
A expressão "dar aulas" é por si só contraditória em sua essência. Segundo o senso comum nosso de todo dia, tudo o que é de graça não apresenta valor, qualidade,consideração ou apreço. Afinal, de graça, "até injeção na testa". Os professores, infelizmente, também assumiram para si a desvalorização pecuniária da sua profissão. Repetem incansavelmente esse mantra que ajuda a perpetuar o sucateamento educacional do país. Assumir inconsequentemente que dá aulas em nada ajudasse a prosperar o nosso tão baixo status, rebaixado ainda mais, a inimigo número um da nação, nos últimos tempos.
Como professor que buscamos a conscientização das pessoas acerca da importância do conhecimento e de nosso ofício perante às futuras gerações, faço coro à fecunda voz de Darcy Ribeiro: "a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto". Este projeto visa manter os professores cada vez mais "dando aulas" e não as comercializando, por um valor justo e por meio meio de uma relação trabalhista digna e saudável.
Eu não sei você, colega professor. O fato é que desde o início nunca dei aulas; sempre as vendi. Vendi-as por valores muito abaixo do que elas valem, é verdade. Mas, entre dá-las e vendê-las, há uma diferença abissal: aquela que valoriza o seu próprio trabalho e de sua tão fragilizada e combalida classe profissional.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

ESTAMOS EM LUTO




Numa pequena cidade chamada Eternidade, curiosamente, há mais de dez anos não falecia ninguém. A falta de defuntos e até mesmo candidatos a tal, trouxe enormes prejuízos para os negócios de Vivaldo, o dono da modesta funerária Só Falta Você, único empreendimento mortuário do município.
O proprietário - que por sinal era muito mesquinho - andava repleto de pendengas com os seus credores devido a ausências de mortes na localidade. O homenzinho vivia agourando os doentes, torcendo para que agravassem seus estados de saúde e findassem suas jornadas na terra. O tal empresário incitava desentendimentos, brigas e desavenças pelos bares e ruas da cidade, a fim de que alguém com sangue nos olhos desse cabo em outrem. Como se não bastasse, bastava saber de um moribundo, no morre-não-morre, que Vivaldo recorria a rezas e simpatias para apressar a passagem desta para melhor, de um próximo e eventual freguês.
O fato é que por ali o tempo passava, mas não a morte. Nem mesmo os desenganados pelos médicos desencarnavam em Eternidade. No auge do seu desespero, Vivaldo teve o disparate de procurar o prefeito – autoridade máxima local - e propor a descabida ideia de se limitar, por meio de uma macabra lei, o prazo de vida dos munícipes, o qual não deveria ultrapassar 70 anos, sob o pretexto de se economizar assim, verbas da saúde e de demais setores da administração municipal.
Ciente dos danos político-eleitorais, que o nefasto decreto e a tresloucada e antipática medida traria, caso fosse implantada, o prefeito foi mais vivo que Vivaldo, e não quis saber de morte em seus despachos. Mas, tamanha era a obsessão daquele homem por um cadáver, que sua ânsia o consumia vorazmente. Ao final de cada expediente, sem ninguém para enterrar, dia após dia, o homem foi se afundando em tristeza. Vivaldo foi definhando, definhando, definhando. Primeiro o sorriso lhe sumiu do rosto. Depois, a voz da garganta. Em seguida, a força das pernas e, por fim, a pouca lucidez que ainda lhe restara na mente.
Não houve outro jeito a não ser internar Vivaldo às pressas. Pouco tempo, após o seu ingresso no hospital da cidade, morria de causas desconhecidas o fúnebre agente daquela cidade. Por ironia ou capricho do destino, a morte encerrou os mórbidos negócios do mais recente defunto, após tantos anos. De funerarista a cliente: eis o fim de Vivaldo. Com o enterro do próprio proprietário, morreu também a combalida funerária e Eternidade seguiu fazendo jus ao seu curioso nome.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

DEGRADAÇÃO


Malas, valises
  Cuecas, reprises,
     Desvios, desmandes,
        Intrigas e crises.

           Truques e tramas,
              Podres poderes,
                 tropeços, trapaças,       
                    lutas de quereres.

                           Grana, dinheiro,
                              gana, influência
                                 status, matreiros
                                    e inconseqüência.

                                           nada se muda,
                                              tudo permanece,
                                                 um pouco desfruta,
                                                    E o povo padece.

domingo, 20 de maio de 2018

À FLOR DA PELE

Não escrevo só para que me leiam.
Não escrevo só para que me vejam.
Não escrevo só para que me ouçam.
Não escrevo só para que me gostem.
Não escrevo só para que me odeiem.
Eu escrevo só para que me sintam!